quarta-feira, 26 de julho de 2017

"TENERIFE" de Paulo Ricardo Moreira



Há uma ilha, entre outras, no atlântico arquipélago canário
que bordeja a costa africana.
Há um vulcão, de nome Teide, que domina as paisagens das
terras que se erguem do mar.
Há um clima, seco a sul e húmido a norte, que sustenta, em
oposição, a vegetação árida e a floresta de laurissilva.
Há construções maciças nas costas, inexistentes nas terras
altas onde, há anos, a pastorícia das cabras pôs em risco a flora
nativa.
Há resorts e autocarros de turistas e há imigração de gentes de
várias nacionalidades para servi-los. O trabalho de uns permite o
ócio dos outros e vice-versa...
E, em tempos, houve Guanches, que fizeram desta ilha a
sua casa e cá viveram, isolados do mundo até à chegada dos
europeus. A conquista espanhola durou dois anos e resultou no
extermínio do povo e da cultura, pese embora a hereditariedade
das linhagens maternas tenha perpetuado a genética em
miscigenação forçada. Foram tempos de cruz e de espada, de
sangue, de escravidão e de todo o tipo de violações...Pouco se
sabe dos Guanches, para além de que aqui chegaram e estiveram
por séculos, sem dominar qualquer técnica naval!
E há mitos e lendas, como em qualquer parte!

E há este hotel, como tantos outros!
Há gordos e gordas a devorarem refeições constantes!
Há velhos e velhas, corpos decrépitos queimados do Sol!
Há um questionar do mundo, em dia de ressaca do Brexit!
E há desperdício de alimentos nos restos dos pratos!
Há desperdício de mentes na insolação dos corpos!

Mas há retempero de vidas na fugacidade das férias!
Há desequilíbrios constantes no equilíbrio dos egos!
Há palavras de circunstância facilitadas pelo álcool!
Há esforços de pronúncia em castelhano forçado!
Há cartões que se trocam por toalhas!
Há minibar reposto diariamente!
Há regime “tudo incluído”, feito de pequenos nadas que
parecem tanto!

E há gente que chega sem saber para onde vem!
E há gente que regressa sem saber onde esteve!
E há gente que fica para fazer da ilha o seu mundo!
E há um mundo infinito que não sabe da ilha!
E há um mundo em mim, na ilha!
E há uma ilha em mim, no mundo!
E não tenho sequer sangue Guanche, mas simpatizo com as
gentes que resistem face à inevitável derrota!
Um dia voltarei ao Teide para homenageá-los...ou talvez
não!
Nunca verei a flor de Vilaflor!
Ocuparei um lugar no autocarro e no avião!
Farei a minha fotossíntese ao Sol!
Perderei a memória dos dias!
Cumprirei, feliz, a passagem do tempo!
Porém, uma vez que domines a navegação, nunca te
confinarás à ilha.
A não ser a que fizeres de ti próprio: inexpugnável e
inconquistável!
Alço a minha vela e parto!
Mas serei também, para sempre, Tenerife!


Tenerife, 24/06/2016


Moreira, Paulo Ricardo - Ainda do Ser. 1ª ed. Porto : Seda Publicações , 2017. , 65, [1] p. ; 23 cm. 978-989-8735-58-4  ( p. 40,41)
(n. em Coimbra, 1976)
  

segunda-feira, 10 de julho de 2017

"ÍTACA, OU O LONGO CAMINHO DE VOLTA" de KONSTANTINOS KAVAFIS


Quando você partir, em direção a Ítaca,
que sua jornada seja longa
repleta de aventuras, plena de conhecimento.

Não tema Laestrigones e Cíclopes
nem o furioso Poseidon;
você não irá encontrá-los durante o caminho,
se você não carrega-los em sua alma,
se sua alma não os colocar diante de seus passos.

Espero que sua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
e que o prazer de ver os primeiros portos
traga uma alegria nunca vista.
Procura visitar os empórios da Fenícia
e recolha o que há de melhor.
Vá as cidades do Egito,
e aprenda com um povo que tem tanto a ensinar.

Não perca Ítaca de vista,
pois chegar lá é o seu destino.
Mas não apresse os seus passos;
é melhor que a jornada demore muitos anos
e seu barco só ancore na ilha
quando você já estiver enriquecido
com o que conheceu no caminho.

Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.
Ítaca já lhe deu uma bela viagem;
sem Ítaca, você jamais teria partido.
Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar.

Se, no final, você achar que Ítaca é pobre,
não pense que ela lhe enganou.
Porque você tornou-se um sábio, e viveu uma vida intensa,
e este é o significado de Ítaca.


 Konstantinos Kavafis (1863-1933)
Poeta grego, geralmente considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno

domingo, 2 de abril de 2017

ENTREGA DE PRÉMIOS POESIA NA CORDA 2017

Entre 10 e 25 de Março, a Poesia esteve na rua, pendurada em cordas que atravessam a Praça Luís Ribeiro.
Cordas na rua, com papel e molas para os transeuntes escreverem e pendurarem os seus próprios poemas no “estendal”.
Paralelamente, dentro das nossas escolas e com o apoio da Rede Concelhia de Bibliotecas Escolares, decorreu o projeto “Poemas Pequeninos” que lançou o desafio aos mais novos de escreverem também eles poemas que acabarão pendurados nas cordas da cidade.

Na passada 6ª feira, pelas 18h00, decorreu a cerimónia de entrega de prémios da Poesia na Corda 2017, evento que fecha "com chave de ouro" a Campanha da Poesia à Mesa deste ano.